Relações Violentas Maio 3, 2008
Posted by Ricardo Ferreira in Cinema Alemão.Tags: Violência Gratuita, Funny Games, Michael Haneke, Guy Debord
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Enquanto assistia Violência Gratuita (Funny Games/1997) do Michael Haneke só conseguia pensar em algumas frases da primeira página do livro a Sociedade do Espetáculo de Guy Debord, que meu amigo, Renato Batata, havia me apresentado alguns dias antes, e que depois descobri que tinha em casa, hehehe. Aquelas palavras ficaram em minha cabeça durante toda a semana, e não é que no final do filme encontrei uma relação significativa com as idéias apresentadas no ínicio do livro.
“E sem dúvida o nosso tempo… prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser… O que é sagrado para ele, não é senão a ilusão, mas o que é profano é a verdade. Melhor, o sagrado cresce a seus olhos à medida que decresce a verdade e que a ilusão aumenta, de modo que para ele o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado. (Feuerbach, prefácio à segunda edição de A essência do cristianismo.)”
cabeçalho da 1º página do livro Sociedade do Espetáculo de Guy Debord.
O modo como o personagem central do filme dialoga com a público piscando o olho para a câmera ,nesse caso, mostra exatamente a relação de identificação entre ele e o espectador que vai ao delírio com os seus bárbaros crimes e sua completa liberdade de consciência.
Separei outro trecho do filme que me fez lembrar do livro do Debord:
(uma dialogo entre os dois assassinos no final do filme( enquanto eles estão passeando no lago)
Peter: - Quando Kelvin supera
a força da gravidade;
acontece que um universo
é real, mas o outro é ficção.
Paul: - Como pode?
Peter: - Era uma espécie
de modelo, de projeção no ciber espaço.
Paul: - E cadê seu herói…
na realidade ou na ficção?
Peter: - Mas a ficção é real, não é?
Paul: - Como assim?
bem, a gente a vê nos filmes!
Peter: - Claro.
Paul: - Ela é tão real quanto a
realidade que vemos.
Peter: - Besteira!
Paul: - Por que?
( 1º item enumerado da 1ª pág. do livro do Debord)
“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação.”
A questão do jogo, que é uma construção simbólica, serve como um elemento para ironizar a razão e os valores da nossa sociedade. E ironiza também a fabulação dentro da ficção como forma de se escapar da realidade ficcional. Resumindo o Haneke é foda, gostaria de assistir mais filmes dele, já vi o Cachê e A Professora de Piano, ambos no mínimo podem ser considerados interessantes e muito bem trabalhados.
Sobre o livro do Debord, é o próximo na minha lista! Já estou baixando o filme também, que foi baseado no livro e é dirigido pelo próprio Debord.


Achei o seu texto interessantíssimo. Quero ver o filme e ler o livro o mais rápido possível.
Obrigado, também quero concluir a leitura do livro, mas vou com calma para tentar desmembrar o que autor coloca de maneira sutil ,ler as entrelinhas! Hehehe
Cuidado com o Debord, Salvador!
Ele pode te deixar maluco…o filme é feito de cenas aleatórias de comerciais e algumas cenas do cotidiano de Paris (eles filmaram quase nada). Com uma narração por cima que é o texto do livro. É bem pesado, esse livro é denso…
Debord nega tudo, ele vai fazer um filme em que a tela fica branca por 20 minutos (acho que é isso) com uma narração por cima e depois só o escuro, sem som, nada mais. Para ele o cinema era o espetáculo e uma das expressões da ordem econômica vigente, ele não separa a vida, a cultura, da economia. É mais ou menos isso…O cinema para ele não era possível.
Ah! E esqueci de falar do Haneke. Ele é um diretor muito interessante, eu vi Caché que me incentivou a baixar a Professora de piano. Que vou assistir logo mais…Mas Caché eu gostei bastante.
A Professora de Piano é um filme muito forte, mais até do que Violência Gratuita. Acredito que erraram feio nessa tradução de Funny Games para Violência Gratuita. O filme A Professora de Piano, deveria ser chamado A Pianista, como o original. Essas traduções para o português são um caos!
ps: Caché foi traduzido como Cachê ai eu concordo, para não dizerem que sou parcial! Hehehe
Haneke é uma das melhores coisas da atualidade, quiçá, a melhor.
Nota: “Debord vai fazer um filme em que a tela fica branca por 20 minutos com uma narração por cima e depois só o escuro, sem som, nada mais”
Debord plagiando Derek Jarman. Mas sem a poesia!
Dri, Derek Jarman, bem lembrado! estava querendo assistir aquele filme Blue sobre o qual você escreveu no seu blog faz algum tempo, vou procurar no Emule!
Ele já fez o filme, é que eu tenho mania de escrever como falo…
Mesmo porque ele morreu….e o filme é Hurlements en faveur de Sade (1952).
Amo Haneke. “O Sétimo continente” também é muito bom. É uma paulada na cabeça, veja só se não estiver deprimido… hehehe.
Obrigado pela dica Amanda, ainda não vi, vou conferir!